Sobre Copas e Águas

Uma coisa que me deixa fascinado é a relação entre a arquitetura das plantas e sua sede por água. Cada plantas tem exigências diferentes quanto a água, luz etc., e para saber como são ao certo o ideal é conhecer o ambiente de origem da planta. As exigências sempre são mais complexas do que parecem; deve-se pensar de forma quadridimensional – o tempo também. Há lugares onde a água vem no verão, em outros no inverno… às vezes é quase só orvalho. E a planta, sempre especialista em tudo o que faz, possui seu corpo adaptado para o melhor aproveitamento da água na forma como ela aparece no seu ambiente de origem.

Divagações à parte, vou falar de algo mais simples do que isso. A copa das plantas, não só das árvores, tem relação direta com o direcionamento da água que ela recebe; é óbvio, mas ninguém repara. Para demonstrar isso vou usar três exemplos nos quais é bem fácil notar:

 

Cycas

 

 

NJ.10.1.1

 

Não sei ao certo como é o ambiente de origem da Cycas revoluta (Japão e Indonésia, segundo Lorenzi). Imagino que seja algum lugar desértico ou semi desértico. Primeiro porque ela é muito rústica; de pleno sol e tolerante a seca, emite folhas uma vez por ano, no verão. Segundo porque ela é, digamos, MUITO sedenta!! Ela não murcha, mas sabemos que ela quer água pela arquitetura da copa: em forma de FUNIL. Experimente jogar água em sua copa e repare que NEM UMA GOTA que tocar nas folhas vai cair no chão: todas escorrem pela raque das folhas e, enfim, pelo caule. Queria fazer um vídeo nas de casa, mas não tive tempo. Se você pensa que qualquer planta é assim, veja a próxima:

 

Fênix

 

 

NJ.10.2.1

 

Tampouco sei ao certo como é o ambiente da Phoenix roboelinii (Vietnã, Assam e Cochinchina, segundo Lorenzi). Também sempre achei que fosse de ambiente desértico ou semi desértico, por isso fiquei intrigado ao ver que sua captação de água é tão diferente da da cyca. A base das folhas pode formar um funil, mas a maior parte não; ao contrário, o resto se estende para longe da base e tem efeito de guarda-chuva. Talvez queira tirar a água do colo da planta, ou talvez queira derramar água na ponta das raízes, não sei! Faça a mesma experiência e repare em quantas gotas são facilmente visíveis pingando longe do caule, pela ponta das folhas. É bonito de ver em um dia ensolarado!

 

Agora veja uma foto comparando a copa das duas plantas:

 

 

NJ.10.2.2

 

Alpínia

 

 

NJ.10.3.1

 

E por fim o caso que acho mais curioso: o da Alpinia zerumbet! Originária da China e Japão, segundo Lorenzi, essa planta tem as folhas abertas e estendidas para a frente, de forma que a água que recebe escorre para fora do colo da planta. Quando murcha, suas folhas se fecham e param de captar água, permitindo assim que a água chegue ao colo.

 

 

NJ.10.3.2

 

Repare que as da primeira foto estão na sombra, enquanto as da segunda foto, do mesmo jardim, estão no sol, então perdendo mais água.

Portanto ela se comporta como Cyca na seca e como Fênix nas águas!

 

Isso é um convite a um olhar mais delicado sobre as plantas! Aprenda a ver o que elas estão dizendo! Você vai se impressionar.

Maurício Félix

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