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Esse assunto é tão banal que não achava que merecia um post só pra ele, mas afinal isso vem contribuindo TANTO no meu jardim e me dando tanto prazer que achei que valia a pena compartilhar.

Muita gente reclama do custo de implantação (e manutenção) de um jardim. Então eu decidi que seria uma idéia interessante achar uma forma mais barata de fazê-lo. Quando andando pela CEASA ou pela nossa loja reparei que é muito fácil achar raminhos de plantas pelo chão, coisa que cai fácil, ou quando se esbarra, resto de poda… alguns de plantas muito interessantes. Comecei a pegar e levar pra casa pra fazer muda. Não uso saquinho nem vasinho, uso fundo de garrafa, de caixa de leite e de suco, bandeja de ovo, copinhos descartáveis (o melhor) etc. Bom é encaixar muitos copinhos, um dentro do outro, e passar um ferro quente (aquele usado como tutor de orquídea) pra furar todos de uma vez, pra drenagem. Claro que isso não vai reduzir DEMAIS o custo e definitivamente não vai atender ao desejo de fazer um jardim 'convencional', com Cycas, Buxinhos, Orquídeas-bambu e essa chatice toda. Mas é um exercício muito interessante e prazeroso, e me ajuda, sim, a conseguir muitas plantas interessantes. Ideal para quem gosta de fazer o típico "jardim de vó", feito com as mudinhas que ganha, sem planejamento, sem desenho… que eu particularmente acho muito mais interessante que o convencional de hoje em dia.

 

No começo eu tinha dificuldade para fazer a estaca logo que eu pegava o ramo, então eu deixava na água por uns dias até conseguir (importante: com o cuidado de checar todo dia se tem larva de mosquito). Com o passar dos dias muitas morriam, enquanto outras continuavam firmes e fortes. Às vezes até demais, me impressionava. Isso acabou se tornando um exercício interessante: descobri várias plantas muito resistentes a seca, que toleravam até semanas fora da planta mãe sem UMA gota de água, já que logo a água secava. Pra quem gostaria de pegar o costume de fazer mudinhas assim, vou dando uma dica de quais são:

 

Commelinaceae em geral: Tradescantias (Trapoeraba, Lambari), Tostão, Véu-de-noiva, Abacaxi-roxo, Royal.

 

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Repare no Lambari-roxo abaixo, à esquerda.

 

Abacaxi, o comestível mesmo. Pegue a coroa.

 

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Não dá uma alegria ver essas cabeleiras de raízes? Além dos que eu como com frequência (faço suco com hortelã da minha horta, na verdade) já peguei uma caixa cheia de coroas no Varejão Oba, de Limeira, e outra na CEASA.

 

Crassulaceae em geral: a maioria das suculentas, como as Folhas-da-Fortuna, Dedinho, Bálsamo e Kalanchoes. Tentei com Rosário, que é de outra família, e ela murchou logo.

 

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Algumas espécies mas não sei ao certo o nome.

 

Peperomia

 

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Peperomia-pendente.

 

Araceae em geral: Singônio, Jiboia, todos os Philodendron, Caladium, Colocasia, Alocasia

 

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Singônio.

 

Um pouco de conhecimento de Morfologia sempre é bom. Repare nessa foto do Singônio e notará que tanto as folhas quanto as raizes só brotam nos 'nós', que são esses segmentos do caule; os 'olhinhos' da mandioca ou os anéis da cana-de-açúcar. Há, sim, plantas que brotam fora desses pontos, mas não é regra. O resultado é sempre mais garantido quando se usam ramos com nós, pelo menos 1. No caso do Singônio os entrenós são bem longos e uma pessoa distraída corre o risco de usar um entrenó sem nó nenhum.

 

Uma coisa muito interessante: todas estas que eu citei menos as Crassulaceae soltam raízes na água pura, sem substrato; não tenho certeza quanto às Araceae mas acredito que sim. Gosto de plantar coroa de abacaxi na terra, e pega bem, mas percebi que na água pura brotam muito mais raízes. Recomendo deixá-las na água pura até soltar raízes e aí então pôr em terra. E não entenda mal as Crassulaceae: elas não são exceção neste grupo porque são mais difíceis; são na verdade mais fáceis. São com certeza as mais fáceis que já vi para fazer muda, já que basta apenas uma folha no solo para originar uma planta nova inteira. Elas possuem folhas gemíferas, com gemas na base que se diferenciam em uma nova planta. Não é uma característica tão comum; a maioria das plantas precisa também de um pedaço de caule para brotar. Estas costumam até soltar folhas facilmente, para essa finalidade, e não raro é encontrar mudinhas das suculentas de uma prateleira brotando na prateleira de baixo, na nossa loja. Apenas não sei se a Kalanchoe comercial comum também tem folhas gemíferas; as outras, sim. Mais interessane ainda são as plantas do gênero Kalanchoe, a comercial comum não, que soltam mudinhas já formadas, até com raizes, das bordas das folhas gemíferas

 

A Barba-de-velho é uma Bromeliaceae (via de regra rústicas também) e pode ser reproduzida de qualquer 'fiapo' que cair de um arranjo flora. Esta aqui peguei assim e amarrei na fibra de coco, é pequena mas está indo muito bem, verdinha.

 

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Ora, sementes também são muito úteis! Há plantas maravilhosas que se propagam muito facilmente, inclusive plantas daninhas. As Ipoméias são um ótimo exemplo.

 

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Aproveito para mostrar duas mudas que fiz anos atrás e se encontram muito bem hoje no meu jardim:

 

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Feito com coroa, já deu um abacaxi delicioso, muito doce. Não sei se nota, mas esta planta está MUITO maior que a coroa de um abacaxi.

 

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Feito com um pedacinho de rizoma ('raiz', caule subterrâneo) que saiu por baixo do saquinho da muda e caiu.

 

Você não vai conseguir fazer assim uma muda de Washingtonia (apesar de que eu tenho uma que nasceu da minha), de Palmeira-azul ou de Buxinho, porque essas plantas demoram DEMAIS para crescer até o tamanho desejado; a Washingtonia ainda é a mais rapidinha dessas. Mas deixando de lado essa idéia rígida de Paisagismo, com plantas da moda exóticas, de deserto, resistentes à negligência do homem pós-moderno, priorizando apenas o desenho e nada mais e com intenso manejo das plantas para mostrar que é o homem quem manda aqui; bom, se você não fizer questão de ter esses princípios básicos do Paisagismo atual no seu jardim essa idéia de cultivar as próprias mudas traz oportunidades muito interessantes…

Gosto de promover o contato das pessoas com a natureza, e com a natureza das coisas. O ganho do jardim não precisa começar com a planta adulta lá, se exibindo pra quem passa. Que o homem veja a plântula, ainda com poucas folhas pouco diferenciadas, veja a vida fluindo, como as plantas são produzidas em viveiro pra chegar até ali e como funcionam as leis da natureza no mundo onde ele vive; e que a planta já chegue ao jardim como prova do empenho desse homem, e de sua adaptação a essas leis. Isso é tão belo quanto as flores que o jardim possa mostrar. Que o jardim comece aí, no começo.

Maurício Félix

2 Comentários

    • Oi, Aurina.
      É muito fácil! Você pode cortar estaquinhas do caule e enfiar na terra, aí é só molhar todo dia. Você vai se impressionar de ver como é fácil! Pode fazer direto no chão, onde você quer que a planta fique.
      Tente usar estacas com pelo menos um nó (o ponto onde a folha se insere). É dali que sairão as novas raízes.

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