Paisagismo e Sustentabilidade 6 – Energia 2 – outros fatores e conclusão

Continuando meu post da semana passada; ambos foram escritos como uma coisa só e separados em dois devido à extensão, mas ainda trabalhei um pouco mais nessa parte.

 

Outro ponto que se encontra em situação grave no cenário do Paisgismo atual é a logística, tipicamente precária no Brasil. Ocorre um intenso transporte de produtos a longas distâncias, gastando sempre grande quantidade de combustível no processo. Os produtores locais têm dificuldade para combater os preços dos grandes produtores, de forma que os clientes compram de mais longe, mais barato. Me lembro de ter ouvido esta questão na Alemanha e lá também esse problema é muito grave. Morei no sul da Alemanha, Heidelberg, e era comum por lá comprar plantas produzidas na Holanda, no norte, com alta tecnologia, que mesmo com o transporte ficavam mais baratas que a produção local. A Holanda está muito à frente da Alemanha nessa tecnologia. Por isso que na minha região havia uma campanha de incentivo ao consumo de produtos locais:

 

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'Ich bin von hier' quer dizer 'eu sou daqui'.

 

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Cartaz citando os diversos benefícios de consumir produtos locais; 'Sete Argumentos para Produções Regionais'. Reparou nas prateleiras? Isso é na 'CEASA' da cidade de Karlsruhe, Alemanha.

 

Grande parte da culpa pela questão logística vem da moda paisagística, que eu vivo citando e criticando nesse blog. Não há valorização da flora local, não há uma identidade etnobotânica. Há apenas uma exigência restrita das espécies utilizadas, independente do seu local de origem (na natureza, digo) e de cultivo.

 

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Da identidade etnobotânica. Buxinhos, Cycas e Kaizukas. Uma típica imagem de floricultura da nossa região, com as plantas que estão na moda por aqui. Só que não: essa foto foi tirada em Fortaleza – CE. Acho uma tremenda vergonha para o Paisagismo que praticamente todas as plantas encontradas nos viveiros por lá sejam as mesmas daqui, sendo que inclusive pertencemos a um ecossistema diferente. Os grandes empreendimentos imobiliários estão ditando o mercado de Paisagismo.

 

E um ponto extremamente importante, talvez o mais, e muito negligenciado na questão energética no Paisagismo é o uso de adubos minerais nitrogenados. Nitrogênio é o nutriente necessário em maior quantidade pelas plantas, e de mais fácil obtenção na natureza. Enquanto outros nutrientes dependem da extração em minas, o Nitrogênio é o principal componente do ar que respiramos (cerca de 78%). Além disso, ironicamente, há muitas fontes de Nitrogênio na forma orgânica de fácil acesso para jardinagem e agricultura, como uréia, cama de animais (esterco de galinha) e palha de leguminosas fixadoras de nitrogênio (adubação verde). Já a forma mineral, a mais utilizada, que é a da maioria dos adubos Forth, Nutriplan, Dimy etc., é extraída do ar. Estaria muito bom (é abundante, acessível) se não fosse quimicamente tão caro, falando da Economia da natureza. O processo industrial de extração do Nitrogênio do ar possui um gasto energético altíssimo. Portanto não adianta muito desligar as lâmpadas do jardim para economizar energia se você usa adubos nitrogenados, que gastam muito mais em sua produção. E qual é a energia utilizada por essa indústria? Combustível fóssil, petróleo, fonte não renovável da moeda da natureza, luz do Sol aprisionada milênios atrás. Por esta questão os adubos minerais nitrogenados são proibidos na Agricultura Orgânica. Deve ser lembrado também seu efeito na produção das mudas utilizadas. Mudas orgânicas possuem balanço energético mais positivo. Mas definitivamente não há espaço para mudas orgânicas no mercado de Paisgismo. Este mercado SÓ se preocupa com o preço.

 

Concluindo:

·      Energia não se resume à elétrica. É apenas uma das muitas formas da capacidade de gerar movimento;

·      toda energia, inclusive a que mantém unidas cada molécula do corpo de cada ser vivo, é proveniente unicamente do Sol;

·      cada planta daninha que nasce é consequência de energia excedente mal alocada. Toda energia excedente é prejudicial ao sistema;

·      é necessário criar um modelo de jardim com a identidade local, que promova o bom aproveitamento da energia, evitando excedentes;

·      todo jardim é um ambiente de alta produção de energia biológica, e é um desafio saber aproveitá-la. A desperdiça quem faz o manejo convencional do jardim, ao manter as plantas intensamente podadas, eliminar resíduos de poda e deixar o solo exposto ao Sol;

·      ambos o uso de adubos minerais nitrogenados e o transporte são enormes desperdícios de energia não renovável;

·      a baixa valorização da flora local também contribui com o gasto energético no setor, pelo excessivo transporte;

·      pequenas atitudes no jardim caseiro são muito relevantes, mas um Paisagismo com um balanço energético sustentável só pode ser alcançado com mudanças em todos os setores da cadeia, começando na produção das mudas, passando pelo transporte e pelo desenho e terminando nos tratos do jardim.

 

Enfim, longe de ser uma conclusão definitiva sobre a questão, essa na verdade é, como dito antes, uma mera exposição de diversos fatores que acho importantes. Repare que muitos ficam sem solução, deixando apenas um desafio.

 

 

Algumas fotos de bônus:

 

Mauricio Felix - NJ.25.4

Que tal triturar seus resíduos de jardim para usar na composteira, ou mesmo como cobertura? Assim a energia produzida não é jogada fora. Hoje em dia já existem muitos trituradores feitos especialmente para jardinagem caseira. Infelizmente os disponíveis no mercado ainda têm preço razoavelmente alto.

 

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Da energia biológica. O morador daqui achou que valia a pena usar a lenha, e não é rural, não; isso é perto do centro de Penápolis – SP, cidade onde temos um escritório. Fizemos um jardim no edifício vizinho, de fora da foto.

 

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Fogão da casa da tia, em Manhuaçu – MG. Energia biológica produzida no jardim, na roça. Quem conhece sabe que comida de fogão a gás não é a mesma coisa que de fogão a lenha; precisa comentar?

Maurício Félix

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