Quebra-vento – um tópico subestimado

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Cacto-rosa, usado como cerca viva e quebra vento, apenas em área rural. Em algum lugar numa estrada entre Limeira e Iracemápolis. Será muito baixo?

 

Entre todos os muitos serviços ambientais que uma planta fornece existe o de quebra vento. Acho que este tópico merece mais atenção do que tem. Curioso que em algumas áreas do meu curso, Engenharia Agronômica, eu ouvia falar muito disso, principalmente em SAF – Sistema Agroflorestal; mas nunca realmente me ensinaram a fazer um.

Este post é um apelo para uma atenção maior ao tópico.

 

Definindo rápido, quebra vento são plantas usadas, geralmente em fileira, com a função de impedir a passagem do vento ou diminuir sua velocidade. Bom, impedir a passagem é só seu efeito direto; vale a pena ir mais além e pensar nos seus efeitos indiretos:

 

Diminuir perda de água

Se lembra do meu post sobre economia de água no jardim[http://www.novojardim.com/mauricio-felix-036como-economizar-agua-no-jardim-na-implantacao/]? Eu também negligenciei o quebra vento nesse, e estou pondo lá agora um lembrete pra visitar este aqui. Vento acelera a perda de água pelas plantas. A água tende a caminhar do meio mais úmido para o mais seco – da planta para o ar. Por isso o ar em contato com as plantas tende a ficar mais úmido. Na presença dessa umidade a perda de água será menor. Aí vem vento e traz à planta um ar novo, preparado para receber a água que ela está disposta a dar. É o efeito secador de cabelo, só que sem a temperatura alta.

 

Fitossanidade

Se lembra do meu post sobre sanidade vegetal e a Defesa Agropecuária[http://www.novojardim.com/mauricio-felix-037trazendo-praga-no-chapeu-o-jardim-e-a-defesa-agropecuaria/]? Pois também o vento é grande forma de disseminação de pragas, doenças e plantas daninhas. A maioria das Asteraceae invasoras tem dispersão de frutos/sementes pelo vento – anemocoria (seguida pela dispersão por animais, como o picão que gruda na roupa – zoocoria). Muitos fungos tem seus esporos carregados pelo vento, assim como um caso que acho mais interessante, os nematoides (pra mim um dos assuntos mais negligenciados na Agricultura hoje em dia), que são carregados pelo pó de terra, como a que levanta quando você passa com seu carro numa estrada sem asfalto. E os insetos na maioria não costumam voar pra longe, como fazem as aves migratórias (salvo exceções como a Borboleta-monarca); seus voos são curtos, a menos que haja vento pra carregá-los. Sim – quebra vento diminui incidência de pragas, doenças e daninhas.

 

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Dente-de-leão. Essa foto foi tirada na Alemanha eu acho BELÍSSIMA. Só pra mostrar as cipselas, os frutos dispersos pelo vento.

 

Segurança

Principalmente na cidade, é uma questão de segurança. Vento derruba árvores, trazendo risco, ou mesmo só as chacoalha, o que pode ser o suficiente pra romper fios.

 

Outros – sujeira e trabalho

Pra quem tem um negócio de varejo de plantas ornamentais como o da minha família, o vento pode dar um belo trabalho… tombando mudas! Já passei umas horas com funcionários, literalmente, só levantando tudo o que tinha caído com uma ventania. Neste momento a questão do vento atinge o fator financeiro.

 

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Quebrou o vaso da Rabo-se-raposa.

 

E outra coisa que incomoda demais, que foi o que a princípio me deu interesse em escrever sobre quebra vento, é a POEIRA. Essa que fica muito pior com esse tempo super seco que estamos enfrentando. Quem mais sofre é nossa loja, praticamente na zona rural – imagine a quantidade de pó de terra que pára nos produtos logo um dia após a limpeza; é demais, é muito trabalho. Novamente o fator financeiro.

 

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Sujeira de um dia!

 

Mas vale lembrar que essa questão do pó de terra começa no campo e é um buraco muuuuuito mais fundo. Deixar ou não o solo coberto é uma discussão longa e quase polêmica.

 

Sustentabilidade

Algo que todos estes subtópicos têm em comum: relação com a sustentabilidade!

Começando pela economia da água, passando por sanidade vegetal e terminando na sustentabilidade econômica – segurar o vento têm mais benefícios do que eu tinha imaginado antes de parar pra pensar no assunto.

 

Mas infelizmente eu mesmo nunca aprendi como fazer. Há um jeito certo – sob risco de piorar a situação. Tem relação com a altura da árvore/arbusto E altura de fuste – o tronco, do solo até a copa, onde saem os primeiros ramos (grossos). De fuste porque o vento também passa por baixo. Um quebra vento mal planejado corre o risco de provocar uma queda mais forte do vento do outro lado ou mesmo um turbilhão.

Me lembro desse caso na Alemanha em que meu professor já tinha dito que havia sido mal planejado, de forma que aumentava a intensidade do vento – foi quase uma previsão: na mesma semana uma ventania derrubou diversas árvores exatamente naquele local. Na verdade elas estavam todas com o caule ferido antes, mas meu professor já havia apontado o vento como agravante.

 

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Enfim, formação de corredores de vento já é um assunto em Urbanismo; queria que igualmente ganhasse atenção na Agricultura e no Paisagismo. Me pergunto se existe um efeito cumulativo significativo; levando benefícios inclusive para a cidade, urbana. Seria muito legal! Nesse caso o costume coletivo de fazer quebra vento atingiria até um fator social, de bem estar coletivo.

 

Sinta-se desafiado a conhecer melhor este tópico e aplicar o que aprender!

Maurício Félix

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