Paisagistas precisam visitar a natureza

Isto é um apelo.

Desde que entrei no ramo sinto muito a distância das pessoas com a real natureza. Na verdade tenho opiniões muito fortes – mas pouco conclusivas – sobre o que é a natureza. Não gosto de ouvir gente olhando uma lavoura, um viveiro de mudas convencional ou um jardim 'clean' e dizendo que se sente na natureza. Esses, apesar do verde, são ambientes antrópicos, profundamente alterados pela atividade humana, ou completamente construídos mesmo.

Quem não conhece a natureza não sabe como ela faz. Não sabe como é o ambiente ideal das plantas, não sabe como é a interação delas com a fauna, não sabe como elas resistem à estação seca… há uma infinidade de elementos interessantes para o jardim que na sua forma natural são desconhecidos. Eles que já estão há tanto tempo nesse planeta e deveriam ser de nosso conhecimento.

Percebo que praticamente TODOS os meus clientes possuem uma ideia simplista – simplificada – do ambiente das plantas. É de sol ou é de sombra, é pra molhar bastante ou molhar pouco… Isso é o que se leva em conta ao fazer um jardim. Mas quem analisa um ambiente natural – uma Mata Atlântica, por exemplo – vê que há muito mais por trás.

A planta se adaptou às condições que encontrou; projetou cada etapa da sua cadeia produtiva, da sua maquinaria fisiológica, pra ter o melhor rendimento no local. E que condições são essas? Temperatura, umidade do ar, água no solo, vento, luz direta, luz difusa, duração do dia, textura do solo, animais, microorganismos… AO LONGO DO ANO! Nas diferentes estações.

Tem planta de verão quente e inverno frio, tem planta de verão fresco e inverno frio; tem também as de verão quente e inverno fresco. E tem as que tem 'verão' o ano inteiro! Diante disso, é tão fácil assim responder à pergunta "essa planta é de lugar quente ou frio?"? Na verdade só ao dizer que tal planta gosta mais de TEMPO FRIO mas SOL DIRETO já dou um nó na cabeça da maioria dos clientes… "mas como assim SOL se ela gosta de FRIO?"

Ou "Essa planta é de sombra" – "… mas eu molho bastante, ela não vai murchar." Pode ter relação, mas não é assim. Paralelamente à falta d'água, planta de sol gosta de sol, de luz direta, batendo na folha.

 

Fica o convite para conhecer a natureza.

Claro; ir a Versailles na sua viagem pela Europa é ótimo – até imprescindível, dá pra dizer, se o viajante é paisagista. Mas não se esqueça de passar também pelos Alpes, onde crescem plantas alpinas, ou pela famosa Floresta Negra, com os pinheiros que não perdem folhas no inverno rigoroso. Mesmo uma singela Odenwald (sem tradução), nome da floresta nativa da minha cidade alemã, Heidelberg, tem seus encantos.

 

Me pareceu interessante neste aspecto esse quadro do Fantástico que acredito que começou essa semana que passou. Por acaso eu assisti e me serviu de incentivo para escrever deste tema que já estava querendo sair. Vimos paisagens BELÍSSIMAS de uma ilha do Iêmen de flora muito peculiar. Espécies que naturalmente só existem por ali – mesmo que algumas nós já temos. Não teve como não se maravilhar com a Rosa-do-deserto. Nós vendemos esta planta e ela faz sucesso, mas nunca algo comparado com o que vi ali. Exemplares enormes, de até 2 metros de altura, com caule extremamente entumescido, parecendo uma bolha. A mesma planta, mas ao mesmo tempo muito diferente da que conhecemos. E por quê? Ora, pelas condições ambentais – muito diferentes das daqui. Ouço com frequência perguntarem das preferências dela – "é de sol ou de sombra? muita ou pouca água?", e no caso dela sempre me confundi. Encontrei Rosas-do-deserto muito grandes em viveiros em Fortaleza, em tempo quente e úmido na ocasião. "Ela é de ambiente quente, ensolarado, e seco, mas é muito resistente; resiste a ambiente sombreado e também gosta de água", eu respondo. É uma aproximação simplista; costuma atender bem à necessidade do cliente de saber. Mas claro; o que a torna tão especial em seu ambiente de origem é muito mais que isso. Experimente mantê-la em local seco e ensolarado por muitos anos pra ver se ela se torna uma bolha de 2 metros de altura com flores na ponta. Não dá; não é simples assim. Não temos em nosso ambiente os elementos necessários para ela se sentir em casa.

 

O ambiente natural deve ser encarado como a ótima fonte de inspiração; muito mais que os jardins e parques urbanos e empreendimentos imobiliários que 'inspiram' paisagistas por aí. Lembre que as florestas já estavam aqui há milênios e tiveram seu tempo pra aprender a aproveitar o ambiente da melhor forma possível.

Você que gosta de colecionar países e estufa o peito pra dizer que visitou França, Alemanha, Holanda, Bélgica, Espanha e Portugal em 15 dias, meu desafio: conheça agora Mata Atlântica, Cerrado (meu preferido), Mangue, Duna, Restinga, Pampas, Caatinga, Mata de Cocais, Floresta Amazônica e Pantanal – a maior parte dos ecossistemas do Brasil, bem mais perto que esses países da Europa. Mas digo 'conheça', não visite. Não é pra passar olhando e tirando foto – interaja, entre, toque, cheire… passe tempo, dias, semanas, meses… o tempo que puder, pra conhecer, como a um amigo. Aí, sim; você terá um 'currículo' de dar inveja pra mim.

 

Achei que poderia ser uma boa ideia compartilhar minhas fotos de diferentes ecossistemas do Brasil. Não, não conheço todos – nem metade. E só conheço de verdade, de me sentir em casa, a Mata Atlântica.

Então vou aproveitar outros post como ocasião para falar dos meus ecossistemas. Se tiver a abordagem que quero vou mostrar como cada ambiente se adapta às condições locais com maestria, muito diferente do que o paisagista faz no jardim do cliente.

 

Que inspire quem puder.

 

Mauricio Felix - NJ.42.1

Mata Atlântica. O telhado típico da roça ainda ajuda a se situar, faz parte da mesma paisagem.

 

Mauricio Felix - NJ.42.2

Mangue.

 

Mauricio Felix - NJ.42.3

Mata de Cocais, no Ceará. Isto é (até certo ponto) uma paisagem natural, um dos raros casos no mundo de monocultivo na natureza.

 

Mauricio Felix - NJ.42.4

Dunas. Muito diferente de um deserto; repare que as plantas ao fundo fazem parte do ecossistema, são plantas adaptadas a este ambiente inóspito.

 

Mauricio Felix - NJ.42.5

Falésia.

 

Mauricio Felix - NJ.42.6

Floresta Negra – Schwarzwald -, pra mostrar algo da Alemanha.

 

Mauricio Felix - NJ.42.7

Odenwald. Bem diferente da Floresta Negra. Vale a pena mostrar em mais de uma estação. Em outra ocasião.

Maurício Félix

2 Comentários

  1. Maurício, parabéns pela sua sensibilidade técnica, compactuo com suas idéias.
    Sou pós graduanda em Direito Ambiental, e minha tese é sobre Eficiência Energética, estou pesquisando sobre a influência positiva do paisagismo produtivo nas moradias (não apenas ornamental), momento que comecei a ler suas postagens.
    Obrigada, venho aprendendo muito com você.

    • Oi, Paula!
      Muito obrigado pelo apoio! Fico feliz em saber que tem gente aprendendo algo com minhas postagens.
      Lhe desejo muito sucesso com sua tese! Esse assunto me fascina!

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