Sem Açúcar, por favor!

Achei pertinente escrever sobre um tema que está sempre em alta nas minhas conversas com amigos e estranhos – não porque eu quero, mas porque a conversa sempre chega nele – que é "Você não põe açúcar em nada mesmo?"

Parece uma coisa boba e fora do tema do blog, mas vou dizer por quê não – nem um nem outro.

 

Me irrita muito o fato de que a conversa sempre chegue nesse meu costume abominável para a sociedade de não tomar NADA com açúcar. Não, eu NÃO faço parte de fração obesa da população e, não, eu não me identifico nem um pouco com a grande maioria dela que está preocupada com o peso, comendo salada mesmo detestando pra manter a forma e tentando dietas milagrosas que mostram por aí. Acontece que essa questão de peso e alimentação saudável tomou conta da atual geração de tal forma, e eu que tô fora disso me sinto um estrangeiro, um imigrante. Ligo a TV, entro na internet, e o que vejo não é pra mim, é coisa de outro país, de outra gente, outra religião… Eu sou um alienígena porque como à vontade as coisas que eu gosto, não tenho peso na consciência e nem faço exercício a contra gosto pra queimar as calorias. Tô cansado de ver isso em todas as mídias – já encheu!

 

Antes de banalizar o meu "como à vontade as coisas que eu gosto" fique sabendo que sou apaixonado por brócolo, jiló, berinjela e mandioquinha. Detesto batata frita e nem lembro quando foi a última vez na vida que comi um cachorro quente ou um hamburguer. Meu café da manhã de todo dia? Banana, mamão e manga, com chá ou café (leite não). Faz 9 anos que não tomo refrigerante e não consigo conter a cara de nojo se me dá uma de experimentar algum. E os sucos – ah, os sucos de fruta! -, todos sem açúcar, me fascinam: limão (cravo, o melhor), maracujá, abacaxi com hortelã… Foi com 17 anos que eu me disse "Peraí, se eu gosto tanto de Coca-Cola (e eu gostava bastante na época) quanto de suco de laranja, por que que eu tomo mais a Coca, se o suco é melhor pra mim?" A resposta era "por costume", "por acessibilidade". Chegava mais fácil até mim; tava todo mundo tomando e eu dividia a garrafa. Experimentei ficar um ano sem – muito fácil – e quando tentei de novo fiz aquela cara – perdi o gosto, pra sempre.

 

Existe uma razão muito forte pra eu ter procurado e encontrado esse meu gosto pelo natural. Não estou falando dos tais "alimentos naturais" que estão na moda e sim da palavra 'natural' em sua essência (em sua natureza). Pra expor, vou lançar uma pergunta e contar um fato:


A Pergunta: O QUE É um refrigerante? 10 segundos pra responder! A maioria das pessoas vai ter dificuldade pra achar uma resposta assim tão rápido. Não vale definição que pode se confundir com suco ou outras bebidas – "bebida gelada refrescante, blá blá blá". Quero a ESSÊNCIA dele. Experimente uma variante também um pouquinho difícil – "O que é uma cerveja?"

O Fato: uma das leis alimentícias mais antiga do mundo é a lei bávara (da Baviera) de pureza da cerveja. Hoje é a Deutsche Reinheitsgebot, que se estende para toda a Alemanha, mas o país simplesmente não existia (como um só) quando a lei foi criada. Vale lembrar também que a lei de hoje é apenas semelhante à outra em alguns aspectos, de forma alguma a mesma lei, nem acho inteligente dizer que tem os mesmos propósitos. Uma forma simples (e superficial) de defini-la, que é a que as cervejarias de hoje em dia usam pra vender suas "cervejas gourmet": cerveja só é cerveja se só tiver água, grão (malte, cereais não maltados, trigo, cevada..) e lúpulo – também fermento, mas na época eles não conheciam microorganismos. Tá aí uma definição muito legal de cerveja! Bebida fermentada cujos únicos ingredientes são água, grãos e lúpulo. Claro que a gigantesca maioria das brasileiras cai fora dessa definição, porque têm aromatizantes, corantes, acidulantes, conservantes… Ironicamente os alemães fazem muita mistura no copo – cerveja com Coca, vinho com Coca, cerveja com suco de limão… – mas cerveja é cerveja; não tem essa quimicaiada que tem por aqui. Mas o que falar do refrigerante, que já nasceu da globalização e já é uma quimera por natureza? Qual ingrediente que entrando na composição de um refrigerante (ou saindo dela) o excluiria dessa categoria??

 

Isso é mais uma reflexão sobre o quanto estamos longe da 'natureza', e nem estou falando verde. Não gosto da ideia de não saber o que é algo que comemos. Adoro aquela cena do filme Ratatouille em que o irmão do rato Remy (o protagonista) come algo que catou no lixo e o primeiro lhe pergunta bravo se ele ao menos sabia o que aquilo era; o outro responde desconsertado que não. Nós somos esse rato!!! Ninguém ao menos pára pra pensar no que é um kani-kama – não é carangueijo. É um processado de carne de peixe com corante pra se parecer com um carangueijo tradicional no Japão. Uma perfeita ilustração de como se encontra nossa comida hoje em dia! Nós pomos corante na cerveja porque não conseguimos processar os grãos da forma correta pra fazer uma Schwarzbier (cerveja preta), e em alguns casos extremos, com champagnes baratos, injetamos gás de refrigerante pra não ter o trabalho de causar liberação natural de gás carbônico pela respiração dos microorganismos. Já é de conhecimento de muita gente que alguns milk shakes de morango por aí nem têm a fruta em sua composição, apenas corante carmesim, extraído de um inseto, a cochonilha. É tudo aparências, imitação, e a essência se perde. Você, brasileiro, não se preocupe: você ainda vai ver no exterior alguma versão abominável de uma receita de casa ("ISSO é caipirinha???") e desprezar o gringo por isso.

 

Somos uma versão pirata de nós mesmos. Isso me irrita demais principalmente por dois motivos (e eu vou chegar no açúcar):

 

Primeiro porque restringe nossas ideias, aumenta nossos preconceitos. Ando muito engajado numa busca pela essência das coisas, saber por que as pessoas pensam assim, se vestem assim, comem isso e não aquilo… A tradição desde sempre ultrapassou o senso crítico nos nossos critérios de seleção. E penso nos maiores problemas da humanidade que enfrentamos no dia a dia e como estamos longe de resolvê-los seguindo essa tradição. Procure a razão das coisas e das suas atitudes; se você as toma sem um motivo, não é bom. Não é lei que eu devo tomar café só com açúcar e o fato de que isso cause tanta repulsa a todo mundo é um indicativo de que nossos julgamentos não vão bem. Eu fiz uma análise lógica pra aprender a apreciar o gosto real das coisas, e isso é bom pra mim. Escândalo é que isso tenha tanta repercussão.

 

Segundo porque mata a diversidade, e há beleza na diversidade. Na verdade ela é a fonte da mudança, então é o que nos move pra frente. Neste ponto outro filme é uma grande inspiração pra mim: Perfume – a História de um Assassino. Ele pareia com Ratatouille em vários aspectos! Pense no mestre perfumista, interpretado por Dustin Hoffman, em contraste com o protagonista. O primeiro se encanta com o perfume agradável das flores, enquanto o segundo, muito antes de se tornar um serial killer que faz perfume com o corpo das vítimas, é fascinado pelo cheiro de todas as coisas – desde frutas cítricas até o de madeira molhada, cobre enferrujado e ratos mortos apodrecendo. É a diversidade que o encanta!

O açúcar é uma mentira. Quem põe açúcar no café gosta de açúcar, e não de café. E quem põe açúcar no suco gosta de açúcar, não de suco. O açúcar é a coisa que a gente usa pra esconder o gosto das coisas das quais a gente não gosta. O mesmo vale pra molho barbecue. Sim, estou extrapolando, mas minha ideia é essa.

Nós não temos senso crítico pra gostar do que é sutil. Isso é muito visível no Paisagismo! Muitas recomendações de plantas minhas não são bem vindas porque não têm flores de cores berrantes – é o brigadeiro do jardim, o leite condensado pra comer de colher. Ninguém repara na bordinha recortada daquela plantinha espontânea; e como eu acho charmosa a sutileza da erva-de-jabuti! Ninguém nunca reparou nessa plantinha.

 

A natureza tem uma diversidade inimaginável de sabores, e nossa alimentação a restringe ao extremo; isso vale em especial para nós brasileiros, de tradição europeia, que não conhecemos os sabores do nosso próprio continente. Pra mim é uma ofensa à natureza. Tentando explorar essa diversidade me sinto mais próximo a ela e mais próximo a Deus.

 

Essa ideia talvez nem tenha nome, mas vem do fundo, está presa à minha alma. Ela define como me relaciono com as pessoas, com a natureza e com Deus. Está muito ligada ao que penso de Paisagismo – e minhas analogias preferidas com essa arte SEMPRE vêm da culinária.

 

Deixo um convite pra procurar satisfação em outros sabores. Dê uma chance ao azedo e ao amargo – eu gosto mais deles, de verdade! Esqueça esse decreto de que o doce é que é bom.

Experimente um refrescante chá de boldo gelado num dia quente – sem açúcar, claro! Um dos meus preferidos.

 

Mauricio Felix - NJ.61.1

Maurício Félix

Deixe sua resposta