A História mal contada dos Animais Urbanos

 

Mauricio Felix - NJ.62.1

 

 

Venho com este post denunciar uma grande injustiça que vem sendo cometida desde o início da "civilização" – culpar a natureza pelos males dos animais urbanos.

 

Não é novidade que a ideia vigente de civilização e modernidade é a favor do urbano e contra o natural, selvagem. E a natureza, que vem desde sempre imprescindivelmente perdendo seu espaço para dar lugar às nossas cidades, acaba entrando em nossa rotina aos trancos e barrancos em brechas que a gente deixa (afirmação questionável por diversos motivos, claro; mas vamos deixar essa discussão de lado hoje). Convivo com muita gente "urbana demais" e tenho que aturar muito comentário pejorativo de quem simplesmente não entende a natureza da natureza. Gente que se diz amante do verde porque tem um jardim com buxinho e ixora, e amante da vida porque tem um cachorro, ou um passarinho em gaiola.

 

A natureza é boa, mas… e a barata que vem do ralo? E o rato que fuça no meu lixo à noite?? E os terríveis mosquitos da dengue??? Como podemos ser amantes da natureza se ela é a responsável por essas afrontas terríveis à limpeza e à higiene perfeita da nossa urbanidade?

 

Não vou citar fontes porque não tenho, mas vou dar minha opinião, baseada no que eu vejo – algo que já se tornou um bordão pra mim: OS ANIMAIS URBANOS SÃO UMA INVENÇÃO HUMANA!

 

Claro, toda espécie animal surge na natureza – seja na mata ou não. O rato urbano veio de um rato selvagem ancestral, assim como a barata urbana. Talvez seus 'primos da cidade' sejam ainda da mesma espécie que eles, mas 1: não são da mesma raça/variedade/comunidade; 2: não prosperam na mata como prosperam por aqui. No meu post sobre o mosquito da dengue eu citei um trabalho científico isentando as bromélias da culpa pela proliferação do inseto. Mas em garrafas, potes e pneus ele vai bem! Isso é a chave para entender por que alguns animais são os que prosperam na cidade: nossa urbe tem uma série de características ambientais que a tornam diferente da mata e igual ao que ela mesma é – sua própria temperatura (destaque para o fenômeno das ilhas de calor), vento (as formações de corredores de vento), gases tóxicos (fumaça de carros, cheiro de esgoto) e muita, MUITA comida. Mas MUITA, MUITA mesmo. Em dispensas, depósitos, na rua, nas latas de lixo, no esgoto, nos aterros, nas margens dos rios… MUITA COMIDA.

Fartura de comida é um fator importante pra definir fauna. Não costumo ver borboletas fuçando no meu lixo. Claro – elas são extremamente seletivas para alimento. Há as que se alimentam de apenas uma espécie de planta. Seu corpo está adaptado para digerir aquele exato tipo de alimento. E este não se encontra no lixo. Já as moscas são o oposto – uma única espécie de mosca das frutas é capaz de se alimentar de literalmente centenas de espécies de frutas. Qualquer coisa suculenta, apetitosa, doce.. cai no prato delas – é paladar de criança! Interessante comparação (puramente poética): afinal, os animais urbanos são aqueles que mais se parecem com a gente! Fizemos nossas cidades do nosso gosto e os animais que as suportaram foram aqueles tão repugnantes quanto nós!

A natureza costuma seguir um padrão de fartura na primavera e no verão, com relativa pobreza no outono e no inverno. Na cidade NÃO. Ou tem menos gente jogando pipoca pra pombas na praça em julho que em dezembro? Tem poucas fezes no esgoto em alguma época do ano??

 

A cidade tem sua própria natureza, com seus próprios fatores ambientais e uma exuberante fartura de alimento. Assim como a mata seleciona os indivíduos mais adaptados, a cidade selecionou os seus; e esses, na mata, não prosperam mais – não suportam a escassez de alimento, a concorrência com outros animais e a ameaça dos predadores. Animais urbanos já são uma nova comunidade de indivíduos, sem precedentes na natureza. E se você é dos que reclamam da quantidade de insetos numa cidade do interior, pense melhor: se a capital é um ambiente muito mais urbano e possui muito mais de tudo aquilo que a torna urbana, por que não teria MAIS insetos, mais ratos?? A resposta é que tem, SIM. E se não vemos ratos andando por qualquer edifício comercial é porque esse é um ambiente de morte, de supressão da vida. Vimos como aquilo – esse 'pedacinho de natureza na cidade' – era repugnante e achamos um jeito de esconder. Com veneno, claro. Não é difícil achar um selo de dedetização em um estabelecimento comercial.

 

Portanto pare de reclamar da natureza toda vez que vir um pardal, uma pomba, barata, mosca, mosquito, rato… como se culpa fosse dela. Eles são inerentes à cidade, tanto quanto você. Eles são a fração da natureza que conseguiu ser repugnante a ponto de se parecer conosco. Eles são tão naturais e tão urbanos quanto nós.

Maurício Félix

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