O que o Blog tem pra dizer sobre o Oscar 2016

Sempre quis escrever algo sobre cinema nesse blog. Vão me dizer que não tem nada a ver com o tema, mas e se eu encontrar um que tem??
Adoro escrever de filmes, e já que hoje é dia de Oscar, acho que é uma boa oportunidade! Me dei o desafio de assistir a todos os indicados a melhor filme e melhor animação. Nenhum deles tem Paisagismo como tema, mas com certeza vários tem material pra algum tipo de discussão, mesmo que remotamente. Veja aqui uma pequena seleção que eu fiz:

 

Shaun, o Carneiro

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Seu estúdio é o mesmo de outros ingleses conhecidos, como “A Fuga das Galinhas” e “Wallace e Grommit – A Batalha dos Vegetais”, e possui pra mim uma marca registrada, além do simpático estilo de animação stop motion com massinha: a identidade (paisagística) rural britânica. Essa identidade cultural se expõe tanto visualmente quanto, digamos, numa análise a nível social, econômico, trabalhístico. Vendo esse filme, repare em tudo aquilo no cenário, e nos personagens, que o tornam, com certeza, não brasileiro. Repare nas plantas, os pastos, as construções rurais, os muros de pedra.. e depois no fazendeiro, suas roupas, sua casa. Ele mora sozinho, não tem funcionários, não veste roupa velha com remendo, nem sua casa tem puxadinho ou parede sem pintar! E ainda tem alta tecnologia agrícola. É um perfil que não se encaixa em nosso cenário.

 

 O Regresso

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Uma história de sobrevivência na natureza, depois de abandonado à beira da morte devido a um ataque de um urso. Essa é uma entre muitas sinopses que eu poderia usar para o filme, e não é a mais justa nem a minha preferida, mas vai servir. “Indispensável para os amantes da natureza”, eu diria (e digo), e você, se viu o filme, vai discordar ou no mínimo achar irônico, já que é um retrato naturalista, nada romântico. É irônico, sim; mas a verdade é que pra ser amante não é preciso ser romântico – há aqueles de nós que amamos as “imperfeições”, o que ela tem de bruto; somos realistas, da escola do realismo.

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A experiência serve para redefinir o valor das coisas. O personagem viu a morte de perto e nós vimos com ele, porque tudo pra nós ganhou um novo valor – e isso não é Paisagismo, isso é TUDO; todas as áreas do conhecimento devem se identificar com isso. Dormir pelado entre as vísceras de um cavalo, dentro de sua carcaça, não parece uma má ideia quando é a única chance de não morrer de frio. É repulsivo – e aceitável; se não for repulsivo o filme falhou em mostrar.

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Repare na identidade pasagística. Os pântanos com Taxodium – os pinheiros de brejo que só existem por lá! – são um ecossistema único no mundo; e os pinheiro cobertos de neve, os rios e as montanhas completam a paisagem.

 

Perdido em Marte

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Era pra ser o menos paisagístico de todos, afinal se passa em Marte! Astronauta tido como morto pelos companheiros é abandonado em Marte, e precisa sobreviver por 500 dias marcianos até seu resgate chegar. Tem um tema em comum com “O Regresso”: a sobrevivência! Mas com uma grande diferença, que é o ambiente. Qual é a ponte que faço com isso? “O Regresso” é uma história de sobrevivência do homem em meio à natureza, se adaptando a ela e fazendo parte dela; “Perdido em Marte” é uma história de sobrevivência num ambiente absolutamente inóspito, onde não há como se adaptar às condições locais, apenas alterar seu ambiente ao extremo para torná-lo suportável, usando engenharia de alta tecnologia. Ora, fazendo uma comparação bem grosseira, esse não é o mesmo contraste que encontramos entre o estilo de jardim inglês e o italiano/francês? O primeiro mostra as formas da natureza, o ciclo da vida; os outros mostram o homem subjugando a natureza, controlando suas formas com sua engenharia!

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Acho que todos nós agrônomos e botânicos nos sentimos lisonjeados quando o protagonista decide plantar batatas, olha para a câmera e diz “Eu sou botânico! Vou mostrar pra Marte do que um botânico é capaz” (com outras palavras, não tenho como conferir). É sua plantação de batatas que escreve o nome original do filme “The Martian”, ou seja, “O Marciano” (por que arrancaram essa poesia do título em português?); se ele tivesse apenas sobrevivido com a comida em estoque não teria colonizado o planeta, não seria um marciano; mas com sua plantação ele estabelece uma ligação maior com o lugar. Pra fazer um rápido comentário técnico, o solo de Marte é absolutamente estéril. Ele não possui qualquer nutriente numa forma absorvível pelas plantas. Foi imprescindível que o personagem tenha misturado as fezes da tripulação com o solo pra que ela fosse meramente cultivável.

 

Mad Max – Estrada da Fúria

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Meu preferido entre os indicados, é o quarto de uma série de filmes num futuro pós apocalíptico causado pela crise energética. Se você viu meus posts sobre Paisagismo e Sustentabilidade deve saber da minha opinião sobre a relação que nosso Paisagismo tem com essa crise – resumindo: o coração do setor, seja nos jardins ou nas lavouras que os precedem, é o combustível fóssil, nossa principal fonte energética. É irônico pensar que o primeiro filme, da década de 70, já foi ambientado nesse mundo; o filme é retrato do seu tempo, e a crise já era iminente na época. De lá pra cá tudo mudou, toda nossa tecnologia e a forma como nos relacionamos com ela, mas por que nossa fonte de energia não? Toda a série Mad Max é tão apropriada para os dias de hoje quanto era para a época; na verdade mais hoje do que antes, considerando que muito foi falado e décadas mais tarde quase nada foi feito. Um thriller de ação conduzido num ritmo frenético do início ao fim, começa nos mostrando rapidamente a sociedade em que vivem seus personagens, quando vemos um retrato muito interessante de sua agricultura. Vemos hortas verticais hidropônicas – genial! Não demora muito pra perceber que aquele oásis é, novamente, mantido por combustível fóssil. Hidroponia é uma técnica de agricultura de alto gasto energético, e nada sustentável. E o leite, então? Ordenhado de mulheres, gordas, mantidas como vacas leiteiras – e como nós humanos somos menos eficientes que os ruminantes, verdadeiras fábricas de proteína e gordura, nessa conversão de energia! Muito maior o gasto energético. E, claro, vemos um grande líder tirano usando de sua prosperidade agrícola como ferramenta de opressão do povo, numa espécie de teocracia pós apocalíptica.

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Recheado de paisagens exuberantes (atenção também para os desertos alagados, estéreis, pra mostrar que água não é sinônimo de fertilidade), essa obra prima do cinema também passa por temas muito diversos – questões sociais, políticas, antropológicas, teológicas, feminismo, até mitologia (ou você não reparou que as mulheres do harém do chefão são musas gregas?) – e tem muito material para discussão. Vale a pena reparar nos mínimos detalhes.

 

O Menino e o Mundo

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Meu preferido para o prêmio de melhor animação é brasileiro! Na verdade, MUITO brasileiro.

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Num visual muito inovador, feito com lápis de cor, giz de cera e recorte de revista, seu tema central é o êxodo rural. Seu personagem começa na natureza, rica, diversa, cheia de cores e de vida, e sai em busca de seu pai, que foi tentar a vida na cidade. Passa por uma lavoura de algodão, depois pela fábrica de beneficiamento, a logística, a indústria da moda e, por fim, o comércio. Ele passa por todos os setores, sempre vendo os mais pobres perdendo lugar para a mecanização – bem como a natureza, que também perde seu espaço (e a forma como as grandes máquinas que derrubam as árvores são retratadas como gafanhotos devoradores gigantes é simplesmente genial). O contraste entre o urbano e o natural é gritante, na ‘escalada’ da favela de recortes de revista, por exemplo. Ao longo do filme acompanhamos o crescimento de uma árvore, plantada pelo protagonista quando criança, de uma semente que ganhou de sua mãe; no final ela está enorme, e o menino, já velho, descansa em sua sombra. É a nossa história, do começo ao fim; nossa identidade nacional. Até a nostalgia que o menino sente no final, ao ouvir de novo a música de seus pais, nos arremata como se a infância fosse nossa, e não dele. A língua falada pelos personagens (são pouquíssimas falas) é ininteligível – é português de trás pra frente! Só duas palavras eu identifiquei: ETNEMES (semente) e EROVRA (árvore).

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Gostaria de falar muito mais dele, mas me faltam palavras. É uma experiência completamente nova pra qualquer cinéfilo.

 

Quando Estou com Marnie

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Se tem um filme nesse Oscar que é explícitamente paisagístico, é essa bela animação japonesa.

Anna é uma menina antissocial com problemas respiratórios que vai passar um tempo no campo, pra ver se melhora, e acaba cultivando uma grande e intensa amizade com Marnie, uma menina de natureza misteriosa. O filme faz questão de mostrar a natureza, e também jardins! É interessante ver que os tios que hospedam Anna cultivam uma horta caseira ‘orgânica’ em frente de casa. Aproveito pra lembrar que nossa agricultura orgânica, brasileira, é baseada principalmente na biodinâmica, europeia, e na natural, japonesa (Agricultura Orgânica e Agricultura Natural NÃO são a mesma coisa). O movimento de agricultura de baixo impacto ambiental não se resume simplesmente a não aplicar veneno; ele prega todo um sistema que envolve fatores humanos – sociais, econômicos e nossos valores pessoais. Tem que mudar a rotina, a logística, tem que mudar o lugar da horta! E os tios da menina fazem isso bem; a horta fica na frente da casa, é caseira, é familiar, é pra consumo próprio, e ainda por cima é ornamental! Ela substitui o jardim, enfeitando a frente da casa. E pra contrastar com esse jardim/horta e com a arquitetura japonesa predominante, temos a casa de Marnie, também bem servida de jardim, que tem um motivo pra ser diferente: Marnie é estrangeira, provavelmente europeia. Isso completa o perfil de natureza misteriosa da personagem. Sua casa (um casarão) é de arquitetura europeia, e seu jardim também. Pra terminar é quase como se tivesse um terceiro estilo de jardim, que é o do abandono. Marnie morou ali já faz vários anos, e hoje a casa está vazia. A natureza retomou aquilo que é seu, e hoje o jardim é cheio de mato e de plantinhas crescendo pelas rachaduras e subindo pelas paredes. De natureza temos a mata e também o brejo, com uma maré que sobe e desce; o que é uma ferramenta do filme pra limitar os horários dos encontros dos personagens.

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Anna saiu da cidade para ter uma nova experiência no campo, e o filme nos faz embarcar na mesma experiência usando as paisagens naturais e os jardins como ferramenta. O Paisagismo tem um papel tão importante assim nessa obra!

 

Espero que com este post você também possa ‘forçar’ a enxergar Paisagismo ‘onde não tem’. Afinal, filmes despertam o que nós temos dentro, e se seus olhos tiverem flores, você vai ver flores em todo lugar.

 

Meus votos por Mad Max e O Menino e o Mundo!

Maurício Félix

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