Comida, Hipocrisia e Sustentabilidade

 

Mauricio Felix NJ75.1

 

 

Há algumas semanas a internet deu muita atenção à polêmica gerada por um programa de TV que exibiu o abate de um cordeiro. Eu, mesmo sendo super a favor de dietas sem carne, não pude deixar de sentir repulsa pela hipocrisia generalizada da população. Vou aproveitar esse momento para comentar alguns tópicos referentes à alimentação.

 

Por quê a crítica ao abate é (na maioria dos casos) uma enorme hipocrisia/ignorância

 

Quem reclama é gente com dó de bicho, e se diz que amante dos animais, mas tá fingindo que não quer ver aquilo que já sabe – que os animais sofrem pra chegar no prato. Há quem diga que é contra os maus tratos, que há carne produzida em boas condições.. OK. Mas como agrônomo tenho que dizer: não há produção sem sofrimento; ou talvez haja mas MUITO pouco, e questionável. Pode ter produtor mais sensível que se esforça pra evitar, mas não tem jeito – ALGUMA prática nesse sistema de produção não vai ser agradável de se ver. E outra, se alguém cria animal sem sofrimento, tem mais trabalho e custo pra isso, e quem vai vender pelo mesmo preço um produto que é mais caro, sem gritar a vantagem que ele tem?

A agricultura orgânica é contra o sofrimento animal. A mutilação é proibida: serrar chifre de boi, cortar dedos de pintos ou orelhas de porcos (esses dois últimos para identificação)… Mas não pára por aí. Porque tem alguma prática ou outra que simplesmente é difícil ou mesmo impossível de se abandonar – como a castração. Não é um luxo, nem uma praticidade; muitas vezes é estritamente necessário castrar alguns animais. Por isso acaba sendo tolerado na agricultura orgânica.

As dietas vegetarianas que não excluem ovos e laticínios só resolvem uma parte do problema. A criação dos animais que os fornecem é dolorosa, sim; mesmo que o corpo dele não caia no seu prato.

E por último, o veganismo, que não é uma dieta e sim um movimento que se expande para outras áreas do comportamento, é com certeza o maior exemplo de respeito à vida. Na alimentação não permite qualquer produto de origem animal – carne, laticínios, ovos, mel (produzido por abelhas), corante carmim (obtidos com cochonilhas, insetos) usado em sorvetes e doces.. e muitos outros que a gente nem imagina. Tem que pesquisar as origens das coisas pra ser vegano. Outros produtos boicotados são roupas de couro, peles, pelos e seda (produzida pelo inseto bicho-da-seda) e cosméticos testados em animais.

E o que falar dessa cruel atividade ‘pecuária’ que é a criação de cães de raça??? Quem ama, adota!

 

Obs: não sou vegano, nem vegetariano, por motivos que não cabe explicar.

 

O ser humano não é um animal carnívoro por natureza

 

Há diversas adaptações do nosso corpo que mostram que NÃO. Nossa excelente visão em cores ocorre em animais que precisam dela para identificar frutas pra comer, diminuindo o risco de ingerir as venenosas. Nossos dentes molares achatados usados para amassar são muito diferentes dos de um cachorro, carnívoro, que são afiados. Nosso intestino depende do consumo de fibras vegetais para funcionar; ele inclusive é muito mais longo que o de um animal que come carne. Descendemos de primatas frugívoros (que se alimentam de frutos). Nossa alimentação pode ser complementada pelo consumo de carne, mas não deve tê-la como base. Sim, deveria ser (relativamente) bem fácil adotar uma dieta sem carne ou com carne reduzida, mas acontece que nossa alimentação é muito menos interessante hoje, do ponto nutricional, do que era quando estávamos na natureza, por questões relativas a mercado, logística e tradição, entre outros. Sei que tem alguns aminoácidos essenciais que são mais difíceis de se encontrar fora de produtos de origem animal, mas é possível. Há um grande engano nessa história de que as proteínas estão na carne.

 

Produção animal é extremamente prejudicial ao meio ambiente

 

Um ponto muito importante hoje, quando se fala tanto sobre sustentabilidade ambiental.

Nossa agricultura convencional tem um balanço energético muito negativo, e a pecuária é um dos maiores vilões dessa história. Pra quem não está acostumado com meu vocabulário, não leu meus textos antigos sobre energia e sustentabilidade ou não é das agrárias, vou simplificar essa coisa de balanço energético negativo: imagine que a energia biológica contida nos alimentos (a energia que assimilamos com o alimento, ou a energia combustível presente na cana-de-açúcar) é MENOR que a energia gasta para sua produção (combustível do trator, combustível gasto na fábrica de fertilizantes, combustível gasto no transporte dos produtos, energia elétrica das bombas hidráulicas…), e o sistema só se aguenta porque tem em sua base o combustível fóssil extraído da natureza – petróleo.

Todo animal produzido em cativeiro tem… PLANTAS como a base de sua alimentação. No cálculo do balanço energético devemos primeiro pensar na energia que se gasta para produção do alimento, e em seguida na conversão dessa energia, vegetal, em proteína e gordura animal. Ninguém precisa ser engenheiro agrônomo para, diante de uma produção de milho pra ração animal se fazer a pergunta “mas esse milho já não é alimento?” Pense na quantidade de milho (ração) que um boi consome pra produzir uma quantidade muito menor que isso de carne; pense também nos ossos, cascos, chifres, sangue, tripas e todas as outras partes do corpo dele que serão descartadas e também foram formados a partir dessa ração consumida. É muita energia perdida na conversão, e muito desperdício por descarte.

Peixe costuma ser pior simplesmente porque é muito retirado da natureza. Alguns muito apreciados que se encontram em qualquer supermercado ainda nem possuem técnicas de criação em cativeiro; são pescados no mar, sem qualquer cuidado. Por outro lado, também já vi programa da TV Cultura falando de um jacaré não ameaçado de extinção cuja caça é permitida e regulamentada. Não é peixe, mas é um caso de exploração animal na natureza que parece dar certo.

E quer outra? A área ocupada por cabeça de gado na maioria das criações é ridiculamente alta, e de fertilidade muito baixa devido a manejo ruim. Só que a ocupação, por esses pastos horríveis, de áreas recém desmatadas é uma importante ferramenta de grilagem de terras, então vem sendo importante no processo de desmatamento das nossas florestas.

 

Mauricio Felix NJ75.2

Quantos quilos desse feno pra um quilo de carne???

 

Minhas conclusões

  • Toda carne sofreu pra chegar no seu prato até que se prove o contrário;
  • é possível pesquisar e encontrar produtos que respeitam mais a vida animal (QUESTIONÁVEL), mas apenas o veganismo o faz por completo;
  • é possível, SIM, viver sem produtos de origem animal;
  • nosso consumo exagerado de carne e leite não se justifica por questões biológicas, e sim de mercado, logística e tradição, entre outros;
  • esses mesmos hábitos alimentares são uma afronta à sustentabilidade ambiental do planeta por vários motivos, principalmente o balanço energético negativo da nossa agricultura;

 

e, por último:

  • existem MUITOS motivos pra você ser contra a exploração animal, porém se você se revolta com a exibição de um abate na TV mas não deixa de comer carne e queijo, ou ainda compra cão de raça, você simplesmente NÃO É CONTRA. A enxurrada de críticas que o programa recebeu não foi de gente preocupada com o bem estar do bicho a ponto de mudar sua rotina; foi apenas uma tentativa de manutenção da zona de conforto, uma manifestação do amor pela própria ignorância. Pra alguns foi um “não me mostra que eu vou ficar com nojo e quero terminar de comer esse bife”. Quem não é vegano não deveria abrir a boca.
Maurício Félix

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