Nossos Jardins Artificiais

Mauricio Felix - NJ.56.1

 

Depois de 59 posts, às vezes tenho dificuldade pra saber se já escrevi ou não sobre algum assunto, principalmente aqueles que mais me interessam, porque vivo mencionando e discorrendo um pouco sobre eles de forma diluída ao longo dos outros posts. Este, por exemplo, é um tema que com certeza já citei muito, mas resolvi dessa vez escrever só sobre ele.

 

Ultimamente abomino a ideia que muitos têm do que é natural. A 'natureza' está na moda, e só citar já agrega valor. Mas o fato é que a maioria das pessoas não tem um contato real com a natureza, e mesmo os que têm contato com a zona rural só conhecem uma face dela já extremamete alterada, longe da sua própria natureza.

 

Quem quer conhecê-la, que vá para a mata. E não qualquer uma. Pasto, não; capoeira, melhor, mas não. Jardim, lavoura, viveiro? De forma alguma! Entre numa Mata Atlântica, num Cerrado, na Floresta Amazônica, aí sim. Já quanto aos outros, o que tenho a dizer é: dá pra fazer muita paisagem ARTIFICIAL verde, usando só plantas. Não se engane pela cor.

 

Mas, afinal, o que torna uma mata tão mais interessante que nossas paisagens verdes de criação humana?

 

Dê uma lida nos meus posts sobre Biodiversidade para entender melhor seu significado e seu valor. Veja como ela é imprescindível na essência e resiliência daquilo que chamamos de natural.

A variedade de plantas usadas normalmente no Paisagismo é ridiculamente pequena. Meu jardim da frente, por exemplo, vergonhosamente só tinha quatro espécies – Washingtonia, Barba-de-serpente, Cyca e Buxinho; acrescentei mais duas – Pau-brasil e Cassia-ferruginea; hoje, seis. Somando com alguns exemplos de espontâneas que nascem ali mas logo eu tiro – tiririca, quebra-pedra, emília, serralha, erva-de-Santa-Luzia, erva-moura, umas duas espécies de capim e alguma semente de pitanga que germina ali com frequência; nove – chegamos a quinze espécies. Essa quantidade é o que facilmente se encontra num trecho de Mata Atlântica bem preservada em um único metro quadrado, literalmente. Repare também que a maior fração dessa biodiversidade (nove das quinze espécies) é devida às plantas daninhas, que nos esforçamos em reprimir – nosso Paisagismo é essencialmente repressor da vida.

Outra coisa que também me preocupa nesse mesmo tópico é a baixa biodiversidade dentro de uma mesma espécie vegetal. As centenas de touceiras de Barba-de-serpente do meu jardim muito provavelmente têm o exato mesmo código genético. Tão biodiverso quanto uma multidão de irmãos gêmeos.

Junto com as plantas vêm a biodiversidade de animais (mesmo os microscópicos) associados. Jardins costumam ser abrigo temporário ou área de pouso para pássaros; essa falta de diversidades das plantas os afeta também.

 

Enquanto a vegetação natural tem seus mecanismos de manutenção de fertilidade (o ciclo natural de criação e degradação da matéria orgânica, trazendo nutrientes para o solo), nossas paisagens verdes têm uma dependência muito grande de adubos minerais. Pare pra pensar em como isso é antinatural. Muito nutrientes são extraídos de rochas trituradas, fonte não renovável, e transformados para que possam ser absorvidos pelas plantas; o caso do Nitrogênio é o mais interessante: é extraído do ar – fonte renovável! – mas o processo industrial para sua conversão para uma forma absorvível depende de combustível fóssil – petróleo! A gente fica feliz com a cor verde do nosso jardim e não imagina a quantidade de petróleo que foi queimado pra que a gente pudesse aplicar NPK.

 

E veneno? Sem os mecanismos naturais de controle de pragas, como a presença de outros insetos predadores e aves, nosso Paigismo é, sim, muito dependente da aplicação de veneno. E ele afeta a natureza mesmo a distância, de formas difíceis de se enxergar.

 

A moda paisagística também uma vilã na história. Hoje, em um grande contraste com a moda ambientalista e o suposto combate ao aquecimento global, a paisagem que está em alta é de muito sol. Barba-de-serpente, Grama-amendoim, Moreia, Cyca, Fênix, Pleomele e Palmeira-rabo-de-raposa: faça um jardim grande com essas plantas e você tem futuro no negócio de Paisagismo para empreendimentos imobiliários! Qual dessas faz uma sombra decente? Uma ironia se comparada com nossa mata original, de sombra.

 

Tenho mais tópicos para citar, mas vou parar por aqui. Acho que deixei clara minha opinião.

 

Nosso Paisagismo é altamente dependente de fontes não renováveis, é repressor da vida e da biodiversidade e a moda do Paisagismo fast food dos grandes empreendimentos é conivente com o efeito de ilhas de calor. Difícil enxergar algo de natural nisso. Fico triste quando ouço alguém dizendo que gosta de estar em contato com a natureza estando num gramado limpo ao lado de buxinhos topiados. Um conselho meu? Paisagistas precisam visitar a natureza.

 

Nossos jardins convencionais são um fator de degradação da natureza.

Maurício Félix

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